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O projeto chinês de plantar mil milhões de árvores trava o avanço do deserto, mas cientistas alertam que pode estar a prejudicar ecossistemas frágeis.

Cientista em campo desértico analisa plantas jovens com bloco de notas por perto.

Na orla do deserto de Tengger, na China, o vento sabe a pó e a seiva. Uma fila de jovens choupos verga sob um céu pálido, com os tubos de rega em plástico a baterem uns nos outros, como ossos soltos na areia. Um agricultor, de casaco azul desbotado, semicerrra os olhos na direcção das dunas, onde uma parede amarelo‑clara avança devagar em direcção à sua aldeia. Aponta para as árvores e diz que são o seu “escudo verde”, plantado no âmbito de uma campanha nacional que transformou terras estéreis em tabuleiros quadriculados de floresta.

À distância, parece um milagre.

De perto, o chão está estranhamente silencioso.

A muralha de mil milhões de árvores que mudou o mapa do norte da China

A Grande Muralha Verde da China - um vasto cinturão de florestas plantadas que se estende por milhares de quilómetros - mudou literalmente a cor dos mapas de satélite. Ao longo de quatro décadas, o país plantou milhares de milhões de árvores no norte, tentando impedir que os desertos engolissem campos, estradas e cidades inteiras. As tempestades de poeira que, em tempos, sufocavam Pequim num ar amarelo e espesso chegam agora com menos frequência, e algumas dunas deixaram de se mover por completo.

Para muitos responsáveis locais, estas árvores são a prova de que uma superpotência pode redesenhar a sua própria realidade climática com pás e mudas.

Os números são vertiginosos. Desde o final dos anos 1970, a China plantou mais de 66 mil milhões de árvores no âmbito do programa “Cinturão de Abrigo das Três Regiões do Norte” (Three-North Shelterbelt), cobrindo áreas em Xinjiang, Mongólia Interior, Gansu e muito mais. Em alguns concelhos, os habitantes recebem bónus por cada muda que plantam e conseguem manter viva. As crianças passam o “Dia da Plantação de Árvores” com as mãos calejadas e os sapatos enlameados, posando orgulhosamente para fotografias em frente a pequenos pauzinhos verdes na areia.

No papel, a cobertura florestal no norte da China aumentou, e os dados de satélite mostram que a vegetação se adensou em torno de alguns desertos antes quase nus.

Mas os cientistas que caminham por essas mesmas florestas contam uma história mais complicada. Muitas árvores são monoculturas de crescimento rápido e grande consumo de água: choupos, pinheiros e outras espécies que não pertencem naturalmente a estes territórios frágeis e secos. Bebem profundamente de aquíferos já escassos, deixando arbustos e gramíneas nativas a definhar. Quando os subsídios desaparecem ou os poços secam, as plantações muitas vezes rareiam, deixando ecossistemas irregulares e stressados - que parecem verdes do espaço, mas soam vazios no terreno.

É aqui que a história de “tornar o deserto verde” deixa de ser uma vitória simples.

Quando combater o deserto, em silêncio, prejudica a terra que se quer salvar

Caminhe algumas centenas de metros para lá do cinturão plantado e o solo conta a sua própria versão. Aqui, na estepe natural, arbustos baixos ficam rente ao chão, espaçados na medida certa para capturar cada grão de humidade. Líquenes e gramíneas resistentes entrelaçam a areia num tapete vivo e áspero. Parece desarrumado e ralo, quase como algo que precisa de ser “consertado”.

Esse desconforto visual é uma das razões pelas quais tantas campanhas insistem em cobertura total com filas certinhas de árvores.

Considere uma aldeia na Mongólia Interior frequentemente citada por investigadores. No início dos anos 2000, tornou-se uma montra do controlo do deserto: milhares de choupos e pinheiros plantados em grelhas impecáveis, financiados por programas nacionais. Durante alguns anos, as tempestades de poeira abrandaram e as pessoas gabavam-se de que a sua terra era agora “um pequeno oásis florestal”. Depois, os poços começaram a falhar. As mulheres caminharam mais longe para obter água potável. As culturas de raízes superficiais passaram a sofrer à medida que o nível freático descia.

As árvores tinham cumprido a sua missão contra a areia, mas lentamente transformaram-se em concorrentes pela sobrevivência.

Os ecólogos explicam que desertos e terras semiáridas não são espaços “vazios” à espera de serem plantados. São sistemas intrincados, ajustados à escassez de água, onde plantas e micróbios do solo partilham cada gota. Grandes plantações de árvores mudam as regras do jogo. As raízes descem fundo, baixando os aquíferos mais depressa do que a chuva consegue recarregá-los. A sombra altera a temperatura do solo, e a queda de agulhas ou folhas muda a química sob os pés.

Tornar a terra mais verde nem sempre significa curá-la. Por vezes, apenas desloca o stress para o subsolo, onde é mais difícil de ver - até ao momento em que algo cede.

De mil milhões de árvores às árvores certas, nos sítios certos

Uma revolução mais discreta começa a ganhar espaço dentro deste projecto colossal. Em algumas parcelas-piloto, cientistas chineses estão agora a plantar faixas de arbustos nativos em vez de paredes densas de pinheiros. Deixam areia aberta entre grupos para que a chuva se infiltre e se espalhe. Testam espécies tolerantes à seca que já existem na região, como o saxaul e leguminosas nativas, em vez de importarem “árvores-herói” de climas mais húmidos.

Fica menos espectacular em fotografias, mas respira ao ritmo da paisagem.

As políticas começam a acompanhar esta ciência - lentamente. Novas orientações falam mais em “restauro” e menos em números absolutos de árvores. As equipas locais são instruídas a proteger pastagens, não a sufocá-las. Os agricultores são incentivados a combinar arbustos, gramíneas e cortinas corta‑vento, em vez de converter tudo em blocos compactos de floresta.

Sejamos honestos: quase ninguém lê documentos de política longos antes de começar a plantar. As pessoas plantam o que sobrevive e o que é recompensado - e é assim que os erros se repetem.

Cientistas e técnicos de campo repetem um aviso simples em salas de reunião e pátios de aldeia:

“Plantar árvores não é automaticamente bom. Plantar as árvores erradas, no sítio errado e com densidade errada pode ser tão prejudicial como não fazer nada - apenas mais fotogénico.”

E defendem regras práticas que qualquer pessoa com uma pá pode aplicar:

  • Proteger primeiro os arbustos e as gramíneas já existentes, sobretudo as crostas biológicas que consolidam a areia.
  • Escolher espécies nativas ou localmente adaptadas, em vez de exóticas de crescimento rápido.
  • Plantar em faixas e manchas, não em tapetes contínuos, para reduzir a pressão sobre os aquíferos.
  • Vigiar a água - se for preciso perfurar poços cada vez mais fundos de ano para ano, algo está errado.
  • Dar voz às comunidades: elas vêem os sinais de alerta muito antes dos satélites.

O restauro verdadeiro parece menos engenharia e mais aprender a viver com uma paisagem, devagar.

Viver com uma “muralha verde” que ainda está a aprender a estar viva

O projecto chinês de mil milhões de árvores está num cruzamento desconfortável. Por um lado, abrandou claramente o avanço de alguns desertos e reduziu as tempestades de poeira sufocantes que outrora pintavam o céu de Pequim de tons sépia. Por outro, partes do mesmo projecto estão a pressionar os aquíferos, a simplificar ecossistemas frágeis e a afastar formas de vida menos visíveis, mas mais resilientes: gramíneas, arbustos, fungos do solo, insectos.

É uma história de sucesso que precisa de edição, não de apagamento.

Todos já passámos por aquele momento em que uma solução grande e arrojada parece boa demais para ser questionada. Plantar florestas no deserto soa heroico, limpo, mensurável. Árvores contam-se facilmente e fotografam-se bem. Gramíneas nativas, arbustos de crescimento lento e raízes invisíveis são mais difíceis de vender num slogan ou num vídeo de drone. No entanto, essa versão mais discreta e mais “desalinhada” do restauro pode ser a que resiste quando os subsídios acabam e os choques climáticos se intensificam.

A era dos mil milhões de árvores está, pouco a pouco, a colidir com uma verdade mais simples e humilde: nem todo o lugar seco quer ser uma floresta.

À medida que outros países desenham as suas próprias “Grandes Muralhas Verdes” no Sahel, no Médio Oriente ou na Ásia Central, observam a China com atenção. Vêem tanto a promessa como o aviso nessas filas intermináveis de choupos e pinheiros. A pergunta já não é apenas “Quantas árvores conseguimos plantar?”

É: “Que tipo de vida queremos que estas terras sustentem daqui a cinquenta anos - e quem decide o que é ‘saudável’?”

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Projectos de mil milhões de árvores remodelam paisagens A Grande Muralha Verde da China abrandou a expansão do deserto e reduziu tempestades de poeira através de vastas plantações Ajuda a perceber que plantar em grande escala é poderoso, mas não é automaticamente positivo
Os custos ecológicos podem ficar escondidos sob o sucesso “verde” Monoculturas sedentas drenam os aquíferos e enfraquecem ecossistemas nativos de zonas áridas Incentiva uma leitura mais crítica de manchetes espectaculares sobre “reverdescimento”
Um restauro mais inteligente foca-se na adequação, não na escala Espécies nativas, vegetação mista e desenhos atentos à água substituem metas de contagem de árvores Oferece uma lente prática para avaliar e apoiar projectos climáticos mais resilientes

Perguntas Frequentes (FAQ)

  • Pergunta 1: O projecto chinês de mil milhões de árvores é considerado um sucesso ou um fracasso?
    Resposta 1: É ambos. O projecto abrandou visivelmente a expansão de alguns desertos e reduziu tempestades de poeira - um ganho real para milhões de pessoas. Ao mesmo tempo, cientistas alertam que partes do projecto consomem demasiada água subterrânea, dependem de monoculturas frágeis e prejudicam ecossistemas nativos. É um sucesso parcial que precisa de uma correcção de rumo profunda.

  • Pergunta 2: Porque pode ser prejudicial plantar árvores em desertos?
    Resposta 2: Muitas árvores plantadas não estão adaptadas à secura extrema. Exigem mais água do que a terra pode dispensar, baixando os aquíferos e competindo com arbustos e gramíneas locais. Com o tempo, os solos podem degradar-se, a biodiversidade diminui e, quando as plantações falham, a terra pode ficar mais pobre do que antes.

  • Pergunta 3: Existem alternativas melhores às grandes plantações de árvores em zonas áridas?
    Resposta 3: Sim. Ecólogos recomendam proteger e restaurar arbustos, gramíneas e crostas biológicas nativas, e usar plantações pequenas e mistas de espécies tolerantes à seca. A agrossilvicultura, o pastoreio itinerante e cortinas corta‑vento “amigas da água” (water-smart) funcionam muitas vezes melhor do que a florestação em manta em locais com precipitação muito baixa.

  • Pergunta 4: A China mudou a sua abordagem em resposta a estas críticas?
    Resposta 4: Gradualmente, sim. As políticas falam hoje mais de restauro de ecossistemas e de protecção de pastagens, e algumas regiões estão a afastar-se de plantações de uma só espécie. Ainda há, porém, uma pressão forte por cobertura arbórea visível, pelo que a prática no terreno é irregular e continua a evoluir.

  • Pergunta 5: O que podem outros países aprender com a experiência da China?
    Resposta 5: Podem aproveitar a ambição e o planeamento de longo prazo, evitando a pressa por monoculturas de crescimento rápido. As lições centrais são trabalhar com espécies locais, acompanhar de perto os impactos na água, envolver profundamente as comunidades e medir o sucesso pela saúde do ecossistema - não apenas pelo número de árvores num relatório.

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