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Porque e que alguns lagartos jogam pedra papel ou tesoura com as cores

Três lagartos sobre uma rocha, dois com gargantas coloridas laranja e azul, num ambiente natural com vegetação ao fundo.

Se já usou um assistente de tradução num site ou numa app, provavelmente já viu mensagens automáticas como “claro! por favor, envie o texto que deseja traduzir.” e “claro! por favor, forneça o texto que deseja traduzir.”: são frases de interface, usadas quando o sistema está pronto para receber conteúdo e transformar linguagem. A razão de isto interessar aqui é simples: alguns lagartos fazem algo parecido, só que em vez de palavras “traduzem” estratégias de sobrevivência em cores - e o resultado parece mesmo um jogo de pedra, papel ou tesoura.

No deserto e em zonas áridas da América do Norte, há populações em que os machos surgem em três “tipos” bem visíveis. Não é vaidade nem acaso. É um mecanismo evolutivo que mantém três estilos de vida em equilíbrio instável, geração após geração.

O “jogo” que se vê a olho nu

A história mais conhecida vem do lagarto-de-manchas-laterais (side‑blotched lizard, Uta stansburiana), estudado há décadas por biólogos evolutivos. Em certas populações, os machos têm a garganta com uma de três cores, e cada cor tende a andar de mãos dadas com um comportamento reprodutivo.

A parte surpreendente é que nenhuma estratégia é “a melhor” para sempre. Cada uma ganha contra uma… e perde contra outra.

Na natureza, a vitória não é absoluta. Depende de quem está à tua volta - e de quantos são como tu.

Como funciona o pedra‑papel‑tesoura das cores

De forma simplificada, o padrão costuma ser descrito assim:

  • Laranja: machos mais agressivos e territoriais, com áreas maiores; tentam “tomar conta” de várias fêmeas e afastar rivais.
  • Azul: machos mais vigilantes e cooperativos (ou pelo menos mais “fieis” a uma área pequena); defendem melhor um território compacto.
  • Amarelo: machos “furtivos”, com menos confronto direto; tentam contornar a defesa dos outros e acasalar por oportunidade.

O efeito pedra‑papel‑tesoura aparece nas interações:

  • Laranja tende a vencer Azul: a agressividade e o território grande permitem-lhe, em certos contextos, ultrapassar a defesa do azul.
  • Azul tende a vencer Amarelo: por ser mais atento ao “perímetro”, apanha melhor os furtivos.
  • Amarelo tende a vencer Laranja: aproveita-se do facto de o laranja ter demasiada área e demasiadas “frentes” para vigiar.

Um resumo rápido fica assim:

Cor/estratégia Vantagem típica Fraqueza típica
Laranja (dominante) domina territórios e acesso a fêmeas vulnerável a intrusões furtivas
Azul (vigilante) defende bem contra intrusos pode ser superado por dominantes
Amarelo (furtivo) contorna a força bruta é travado por vigilância apertada

Este tipo de dinâmica chama-se seleção dependente da frequência. Traduzindo para linguagem do dia a dia: ser laranja é ótimo… quando não há laranjas a mais.

Porque é que a natureza “não escolhe” um vencedor

À primeira vista, parece estranho que a evolução não “apague” as estratégias piores. Mas aqui está o truque: a qualidade de uma estratégia depende do ambiente social que ela própria ajuda a criar.

Quando há muitos laranjas, por exemplo, cresce a oportunidade para amarelos (há mais territórios grandes, mais distrações, mais “buracos” na vigilância). Se os amarelos aumentam, os azuis passam a ter uma vantagem maior (porque o seu estilo de defesa funciona melhor contra furtivos). Se os azuis se tornam muito comuns, os laranjas recuperam terreno (a força bruta volta a compensar).

É um ciclo. Não perfeito, não sincronizado como um relógio, mas suficientemente consistente para manter as três formas em rotação.

A evolução não procura “o melhor”. Procura o que funciona agora, nas condições atuais.

O papel das cores: sinal, identidade e atalhos sociais

As cores não são apenas “etiquetas”. Num sistema destes, um sinal visível pode poupar tempo, energia e ferimentos.

  • Evita lutas desnecessárias: se um macho reconhece rapidamente o tipo do rival, pode ajustar o risco (atacar, recuar, vigiar).
  • Acelera decisões: a época reprodutiva é curta; hesitar pode custar descendência.
  • Cria previsibilidade: quando estratégias estão associadas a sinais, o comportamento dos outros torna-se mais “legível”.

Em termos evolutivos, sinais honestos e sinais “baratos” competem. Aqui, a cor pode funcionar como um indicador razoavelmente fiável de um conjunto de tendências comportamentais e hormonais, mesmo que existam exceções.

O que isto tem a ver com teoria dos jogos (e contigo)

O mais fascinante é que este fenómeno não é só uma curiosidade de répteis. É um exemplo vivo de como regras simples podem gerar equilíbrio sem um “campeão final”.

Na prática, este sistema ajuda a perceber:

  • Porque a diversidade pode persistir mesmo quando parece haver uma estratégia dominante.
  • Como a competição muda as regras do sucesso: a vantagem de hoje pode ser a fraqueza de amanhã.
  • Porque sinais (cores, marcas, comportamentos) importam: reduzem incerteza num mundo de decisões rápidas.

Se isto te soa a mercados, política, estratégias de carreira ou até dinâmicas sociais, não é coincidência. A lógica de “ganho contra um, perco contra outro” aparece sempre que há competição e adaptação.

As confusões mais comuns (e o que vale a pena lembrar)

Há dois erros frequentes ao falar deste “pedra‑papel‑tesoura”:

  1. Achar que é uma regra fixa em todas as espécies. Não é. O exemplo clássico é muito específico e depende da ecologia local.
  2. Pensar que a cor causa o comportamento como um interruptor. Em geral, cor e estratégia fazem parte de um pacote: genética, hormonas, contexto, experiência e pressão social.

O ponto central não é “os lagartos escolhem uma cor”. É que, ao longo do tempo, a seleção natural consegue manter alternativas estáveis quando nenhuma alternativa consegue dominar para sempre.

FAQ:

  • O pedra‑papel‑tesoura é literal, como um jogo? Não. É uma metáfora para um ciclo de vantagens: uma estratégia supera outra, mas é superada por uma terceira.
  • Isto acontece só em Uta stansburiana? O caso mais famoso é esse, mas dinâmicas semelhantes (competição cíclica e seleção dependente da frequência) podem surgir noutros animais e até em microrganismos, com sinais diferentes.
  • As cores servem para atrair fêmeas ou para intimidar machos? Podem servir para ambos, mas neste contexto são especialmente úteis como sinal rápido entre machos: “que tipo de rival és tu?”.
  • Porque é que a estratégia “furtiva” não domina? Porque quando os furtivos ficam comuns, os vigilantes (ou estratégias equivalentes) tornam-se mais eficazes a detetá-los e travá-los.
  • O que isto ensina sobre evolução? Que a seleção natural pode manter diversidade quando o sucesso de cada tipo depende de quantos outros tipos existem - e isso pode impedir um “vencedor” permanente.

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