Saltar para o conteúdo

O que falar constantemente de si próprio revela, segundo a análise psicológica

Dois homens sentados à mesa; um segura o telemóvel e o outro uma caneca, com plantas ao fundo na janela.

A tendência de trazer constantemente tudo de volta a si próprio irrita muitas vezes os outros, mas também revela muito sobre o modo como uma pessoa funciona psicologicamente. Por detrás deste fluxo contínuo de “eu, eu e eu” estão necessidades emocionais, vulnerabilidades mais profundas e, por vezes, riscos reais para as relações sociais.

Quando falar de si se torna um estilo permanente de comunicação

Toda a gente fala de si - e isso é positivo. Partilhar o dia, uma memória ou uma emoção é essencial para nos sentirmos ligados aos outros. O problema começa quando uma conversa se transforma sistematicamente num monólogo centrado numa única pessoa.

Os psicólogos observam que este tipo de comportamento está longe de ser trivial. Não se trata apenas de um momento de entusiasmo ou de um dia “sem filtro”. Para algumas pessoas, falar de si torna-se a sua forma padrão de comunicar.

O que causa dificuldades não é a auto-revelação em si, mas a incapacidade de deixar espaço para a outra pessoa na troca.

Nas conversas do dia a dia, este padrão aparece rapidamente:

  • Menciona um problema no trabalho e a outra pessoa responde com “Pois, mas eu…” antes de começar a contar a sua própria história.
  • Fala de um projeto e a conversa muda para os sucessos, falhanços ou ambições dessa pessoa.
  • Partilha uma emoção, que é rapidamente substituída pela emoção dela.

Com o tempo, quem está à volta sente-se posto de lado, não ouvido, ou até usado como espectador passivo. A relação torna-se desequilibrada, quase de sentido único.

O que isto revela sobre a personalidade, segundo a psicologia

Uma necessidade escondida de validação

Muitas pessoas que colocam constantemente as conversas à volta de si estão, antes de mais, à procura de validação. Falar das suas conquistas, dificuldades, desafios ou talentos ajuda-as a confirmar se “contam” aos olhos dos outros.

Os psicólogos associam frequentemente este comportamento a uma autoestima frágil. Quanto mais uma pessoa duvida do seu valor, mais provável é que se coloque em evidência - por vezes de forma insistente - para receber elogios, aprovação ou simples sinais de admiração.

Por detrás de um discurso muito centrado em si próprio existe muitas vezes o medo de não ser suficientemente interessante, inteligente ou bem-sucedido.

Entre a autoelogio e a falta de reconhecimento

Em alguns casos, este hábito reflete uma forma de auto-congratulação. Quando uma pessoa se sente pouco reconhecida pelo seu meio, pode recordar repetidamente aos outros as suas conquistas, reivindicar o mérito por projetos ou sublinhar o quanto “aguentou” e “lutou”.

Estas histórias repetidas funcionam como um mecanismo de auto-reforço: falar de si fortalece a sensação de existir, de ter sucesso e de estar no controlo. O problema surge quando esta necessidade se sobrepõe a ouvir os outros e transforma qualquer discussão numa montra pessoal.

Narcisismo - mas não só

A psicologia também associa este comportamento a certos traços narcisistas. Nesses casos, a pessoa coloca-se no centro, considera as suas experiências mais importantes do que as dos outros e tem dificuldade em interessar-se genuinamente pelo que quem a rodeia está a viver.

Muitas vezes há, em pano de fundo, uma falta de empatia: a outra pessoa torna-se um público e não um verdadeiro parceiro de conversa. As emoções, necessidades e limites do outro passam para segundo plano face à necessidade de falar de si.

Sinal na conversa O que pode indicar
Interrompe frequentemente para contar a sua própria história Necessidade de reconhecimento, dificuldade em dar espaço
Redireciona todos os temas para a sua própria experiência Egocentrismo, fraca escuta ativa
Desvaloriza os problemas dos outros falando dos seus Baixa empatia, necessidade de se sentir mais forte ou mais merecedor de atenção
Gaba-se regularmente sem ser solicitado Necessidade de validação, traços narcisistas

Causas mais profundas: insegurança, medo de rejeição e comparação constante

Insegurança que leva à necessidade de ocupar todo o espaço

Muitas pessoas que só falam de si não se sentem seguras nas relações. Têm medo de ser ignoradas, desvalorizadas ou substituídas. Dominar a conversa torna-se uma forma de manter o controlo.

O medo de ser julgado, ridicularizado ou abandonado tem, por vezes, raízes na infância ou em experiências relacionais dolorosas. A auto-narração contínua torna-se uma forma de garantir que a atenção permanece nelas - como um foco de luz que se recusam a apagar.

Medo de rejeição, inferioridade… ou superioridade

Os psicólogos apontam também o medo da rejeição como um fator importante. A pessoa sente que, se não falar de si, vai desaparecer para segundo plano. Por isso multiplica anedotas, confissões e opiniões detalhadas sobre a sua vida.

Este comportamento pode vir de um complexo de inferioridade: sentir-se “menos do que” os outros leva a pessoa a compensar, destacando constantemente o que sabe, o que viveu ou o que alcançou. Paradoxalmente, um complexo de superioridade pode conduzir ao mesmo resultado - a pessoa vê-se como mais perspicaz, mais experiente ou mais legítima, e assume naturalmente que o seu ponto de vista merece mais espaço.

A auto-centralidade constante pode esconder tanto um sentimento de “não valho grande coisa” como de “valho mais do que os outros”. Em ambos os casos, a relação fica desequilibrada.

Efeitos nos mais próximos: exaustão emocional e afastamento silencioso

Ao nível relacional, este padrão raramente vem sem consequências. As pessoas próximas descrevem frequentemente cansaço emocional. Saem das conversas com a sensação de terem servido de desabafo, espelho ou palco, sem conseguirem partilhar o que vai dentro delas.

Com o tempo, algumas pessoas reduzem as interações, evitam temas pessoais ou encurtam as conversas. A pessoa centrada em si pode viver este afastamento como traição, sem reconhecer a ligação ao seu próprio comportamento.

  • Os amigos tornam-se mais distantes.
  • Os colegas limitam as conversas pessoais.
  • As relações amorosas perdem dinâmica devido à falta de escuta recíproca.

Ironicamente, esta dinâmica reforça o medo inicial: quanto mais rejeitada a pessoa se sente, mais pode tentar tornar-se visível falando ainda mais de si.

Como reconhecer este comportamento em si - e começar a corrigi-lo

Perguntas honestas a fazer a si próprio

Sem fazer qualquer teste formal, alguns sinais de alerta podem ajudar. Depois de uma conversa, pergunte a si próprio:

  • Fiz perguntas específicas à outra pessoa sobre o que ela está a viver?
  • Permiti silêncio e dei-lhe tempo para desenvolver as respostas?
  • Redirecionei a conversa para mim sempre que possível?
  • Lembro-me genuinamente do que ela me partilhou?

Se as duas primeiras respostas forem muitas vezes “não” e as duas últimas “sim”, a tendência para trazer tudo de volta a si provavelmente já está bem instalada.

Formas práticas de reequilibrar a conversa

Os psicólogos sugerem alguns hábitos simples para evitar trocas sufocantes:

  • Estabeleça uma regra mental: por cada anedota pessoal, faça pelo menos duas perguntas à outra pessoa.
  • Pratique a escuta ativa, parafraseando o que a outra pessoa acabou de dizer antes de falar de si.
  • Aceite o silêncio sem sentir que tem de o preencher de imediato.
  • Repare quando interrompe e, conscientemente, devolva a palavra.

Voltar a aprender a ouvir não significa apagar-se - significa partilhar verdadeiramente o espaço com a outra pessoa.

Quando o discurso centrado em si esconde um problema mais amplo

Em alguns casos, este estilo de comunicação faz parte de um padrão psicológico mais vasto: ansiedade social, dependência emocional, perturbação de personalidade narcisista ou traços de personalidade borderline. O discurso centrado em si torna-se então um sintoma entre outros - dificuldade em lidar com críticas, instabilidade emocional ou relações intensas que terminam abruptamente.

Consultar um profissional pode ajudar a distinguir um simples hábito de uma estrutura psicológica mais complexa. O trabalho terapêutico pode permitir à pessoa ligar esta necessidade constante de falar de si a experiências precoces de rejeição ou desvalorização.

Para ir mais longe: empatia, exercícios práticos e riscos a longo prazo

Há uma palavra que surge de forma consistente neste tema: empatia. Não se trata apenas de “deixar a outra pessoa falar”, mas de se importar genuinamente com o que ela sente, pensa e, por vezes, tem dificuldade em expressar. A empatia pode ser treinada como um músculo através de pequenos exercícios diários: ouvir alguém durante três minutos sem interromper, parafrasear as suas palavras ou identificar as emoções por detrás do que diz.

A longo prazo, falar apenas de si traz riscos reais: isolamento progressivo, conflitos repetidos e uma reputação de ser “difícil de lidar”. A vida profissional também pode sofrer - um colaborador que monopoliza reuniões ou um gestor focado apenas no seu desempenho acaba muitas vezes excluído de decisões-chave.

Em contrapartida, aprender a reequilibrar as conversas traz benefícios tangíveis: relações mais estáveis, maior confiança dos outros, melhor cooperação no trabalho. E talvez o mais importante: um alívio frequentemente esquecido - a liberdade de já não precisar de provar constantemente o seu valor através das palavras.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário