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Médicos alertam que muitos seniores após os 65 anos lavam-se em excesso, o que pode ser prejudicial.

Mulher idosa usando sabonete em creme numa casa de banho iluminada, junto a uma janela e lavatório com água a correr.

A enfermeira mal tinha acabado de chamar o nome dela quando Margaret, 72 anos, se levantou e puxou nervosamente as mangas do seu casaco de malha.

  • Tomo banho todos os dias - disse ela ao geriatra, antes mesmo de ele se sentar. - Às vezes, duas vezes. Não quero cheirar a velha.

Ele sorriu com gentileza e começou a fazer perguntas que soavam quase indelicadas: Quão quente está a água? Quanto tempo fica? Que sabonete usa? As respostas vieram depressa, com um toque de orgulho: esfrega diariamente. Gel de banho forte. Duches longos, com enxaguamentos a escaldar.

Depois veio a reviravolta: o médico não ficou impressionado. Ficou preocupado.

Falou devagar, explicando que a pele seca e com comichão, as infeções recorrentes, até as tonturas depois do banho podiam não ser sinais de envelhecimento. Podiam ser o resultado de “higiene a mais”. As palavras ficaram suspensas no ar como vapor num espelho de casa de banho. Será que lavar-se demasiadas vezes, depois dos 65, pode mesmo deixar as pessoas mais doentes?

Porque é que os médicos dizem que muitos idosos estão “demasiado limpos” para seu próprio bem

Entre em qualquer residência sénior às 7 da manhã e ouvirá a banda sonora do dia: duches a correr, torneiras a jorrar, portas de armários a abrir sobre filas de sabonetes e loções. Para uma geração criada no evangelho de que “a limpeza é quase santidade”, saltar um banho parece quase como falhar um dever moral. A sujidade era o inimigo. O cheiro era vergonha. Uma casa de banho a brilhar significava uma vida respeitável.

Os geriatras estão agora, discretamente, a desafiar este guião.

Estão a ver pele frágil, comichão crónica, infeções urinárias repetidas, quedas em casas de banho escorregadias - tudo ligado a rotinas de lavagem que antes pareciam virtuosas. Alguns médicos até brincam, meio a sério, que os doentes mais limpos são muitas vezes os que têm a pele mais irritada. As regras antigas já não servem para corpos que ficam mais finos, mais secos e mudam com a idade.

Olhe para os dados e a história ganha nitidez. Em vários países ocidentais, inquéritos mostram que mais de 60% das pessoas com mais de 65 anos referem tomar banho de corpo inteiro diariamente (duche ou banheira), muitas vezes com água quente e géis fortemente perfumados. Ao mesmo tempo, clínicas de dermatologia registam um aumento de casos de xerose - pele dolorosamente seca - e eczema em adultos mais velhos. Enfermeiros em lares de longa permanência também relatam, discretamente, um padrão: os residentes que se lavam com menos frequência, e com produtos mais suaves, tendem a ter menos fissuras e feridas na pele e menos comichão.

Um estudo francês em idosos em instituições encontrou que reduzir a lavagem de corpo inteiro de diária para três vezes por semana, mantendo a lavagem diária “direcionada” de zonas-chave, diminuiu as taxas de irritação cutânea sem aumentar as taxas de infeção. Sem cheiros extra. Sem desastres de higiene. Apenas menos erupções e menos queixas. Para médicos que antes insistiam em “lavar mais”, isto é quase uma pequena revolução.

A lógica é simples - e um pouco desconfortável. A pele não é apenas uma superfície que se suja; é uma barreira viva, uma aldeia de microbioma. Sabões, água quente e esfregar com força removem os óleos naturais e desequilibram o delicado conjunto de bactérias e fungos que nos protege em silêncio. Depois dos 65, a barreira cutânea afina, o sistema imunitário muda e a recuperação é mais lenta. O que parecia “refrescante” aos 30 pode tornar-se arriscado aos 75.

A cultura da higiene não acompanhou a biologia. Muitos idosos continuam a lutar contra o inimigo de ontem - a sujidade - enquanto criam os problemas de hoje: microfissuras na pele, unhas enfraquecidas, tecido genital mais frágil nas mulheres após a menopausa. Os médicos não estão a pedir às pessoas que “desistam” da limpeza. Estão a pedir que repensem o que significa, de facto, “limpo o suficiente” quando o corpo já não é o mesmo de quando tinham 40 anos.

Como lavar menos, manter-se limpo e, de facto, sentir-se melhor depois dos 65

Quando os especialistas dizem “está a lavar-se demasiado”, não estão a sugerir que alguém viva numa nuvem de pó. Estão a falar de estratégia. Uma mudança simples destaca-se: trocar o banho diário de corpo inteiro por uma rotina de “zonas-chave” na maioria dos dias. Isto significa focar axilas, virilhas, zona genital, pés e quaisquer pregas de pele com uma toalha macia e água morna, e depois fazer um duche completo duas ou três vezes por semana em vez de sete.

No papel, isto soa radical. Na vida real, muitos idosos que experimentam dizem que, na verdade, se sentem limpos por mais tempo.

O método é preciso: duches curtos - 5 a 10 minutos - com água morna, não a fumegar. Produtos de limpeza suaves (syndet) sem perfume em vez de sabonetes agressivos. Mãos ou um pano macio em vez de esponjas ásperas. Secar a dar toques, não a esfregar. Depois, um hidratante simples e rico nos braços, pernas e tronco enquanto a pele ainda está um pouco húmida. Este é o segredo discreto: a água limpa, mas a gordura certa mantém a barreira viva.

É aqui que, para muitos adultos mais velhos, entra a culpa. Passaram décadas a ouvir que as pessoas “de bem” estão sempre acabadas de tomar banho, cabelo lavado, roupa mudada, todos os dias. Muitos foram ensinados que não se lavar diariamente é preguiçoso ou até “nojento”. Por isso, quando um médico sugere menos banhos completos, alguns sentem vergonha em segredo… como se estivessem a descair. E, na prática, os velhos hábitos também custam a morrer. Os duches longos e quentes são reconfortantes. O cheiro de sabonete forte parece uma prova de “limpeza a sério”.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias exatamente como os folhetos de saúde mandam - água suave, temperatura perfeita, produtos ideais, sem pressas, secagem cuidadosa de cada prega. A vida complica-se, sobretudo quando mexer dói, a casa de banho parece perigosa, ou já se está cansado de lutar com azulejos escorregadios. Muitos idosos acabam por oscilar entre “demasiado” nos dias bons e “nada” nos dias maus. O objetivo não é perfeição. É um ponto de partida realista e mais gentil.

Médicos que trabalham de perto com pessoas mais velhas dizem muitas vezes que a mudança mais poderosa é emocional, não técnica. É dar permissão para ser menos perfeito e, ainda assim, sentir dignidade.

“A limpeza não é uma competição”, diz a Dra. Lena Morris, geriatra em Londres. “Depois dos 65, a rotina mais saudável costuma ser a mais suave, mais curta e um pouco menos frequente. Não está a falhar na higiene. Está a adaptar-se à pele que tem agora.”

Para muitos leitores, isto pode ser um alívio. Ou um choque. Ou ambos.

  • Espace os banhos de corpo inteiro para 2–3 vezes por semana, com lavagem diária das zonas-chave usando produtos suaves.
  • Baixe a temperatura da água: a água morna protege melhor os óleos naturais do que a água muito quente e reduz tonturas e quedas.
  • Hidrate logo a seguir ao banho com um creme simples e sem perfume para reconstruir a barreira cutânea e acalmar a irritação.

Repensar o “limpo” depois dos 65: uma revolução silenciosa na casa de banho

Depois de ouvir médicos dizerem que, após os 65, muitas pessoas estão “limpas demais para seu próprio bem”, é difícil deixar de pensar nisso. Começa a reparar em pequenas coisas: a amiga cujos braços estão sempre ligeiramente vermelhos e a escamar; a avó que brinca com as suas “pernas de crocodilo”, mas continua a tomar dois duches quentes por dia porque “é isso que as pessoas decentes fazem”; o homem que continua a ter infeções fúngicas entre os dedos dos pés enquanto esfrega com orgulho de manhã e à noite.

Raramente falamos destas rotinas, mas elas moldam o conforto, o sono, até a intimidade.

A nível social, a ideia de que lavar menos pode ser mais saudável choca com uma indústria enorme de géis perfumados, toalhitas antibacterianas e ansiedade em torno do odor. Também encosta à solidão e ao medo. Para alguns idosos, um duche longo não tem nada a ver com sujidade - tem a ver com um ritual, um momento de controlo, uma razão para fechar a porta e ficar com os próprios pensamentos. Pedir-lhes que mudem essa rotina é pedir-lhes que renegociem uma parte da sua identidade.

E, no entanto, as histórias de quem ajusta são marcantes. Menos arranhões durante a noite. Menos ardor ao urinar em mulheres mais velhas que deixam de usar sabonetes agressivos na zona genital. Pressão arterial mais estável em quem deixa de tomar duches a escaldar que os deixavam tontos. Pequenas mudanças, grandes efeitos. Todos já tivemos aquele momento em que percebemos que algo que fizemos “bem” durante anos pode já não nos servir. A higiene depois dos 65 é um desses pontos de viragem silenciosos para os quais ninguém nos preparou.

Isto não é para julgar quem toma banho com que frequência. É para abrir uma conversa que os médicos já estão a ter nos consultórios, com calma e individualmente, com doentes como a Margaret. Uma conversa sobre ouvir o corpo em vez da publicidade. Sobre substituir a culpa automática por curiosidade. Sobre perguntar, sem vergonha: “E se estar um pouco menos impecável me ajudasse a sentir-me muito mais confortável?” Parecem perguntas pequenas. Não são.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Adaptar a frequência dos duches Passar de duches diários para 2–3 por semana com higiene direcionada diária Reduzir secura, comichão e risco de queda sem sacrificar a higiene
Proteger a barreira cutânea Usar água morna, produtos de limpeza suaves, hidratar logo após o banho Manter a pele mais confortável, menos frágil e menos propensa a infeções
Mudar a perspetiva sobre a “limpeza” Aceitar que, depois dos 65, “menos agressivo” significa muitas vezes “mais saudável” Aliviar a culpa, adaptar a rotina à idade e sentir-se melhor no próprio corpo

FAQ:

  • Com que frequência deve um idoso saudável tomar banho? A maioria dos geriatras sugere um duche ou banho de corpo inteiro 2–3 vezes por semana, com lavagem diária das zonas-chave (axilas, virilhas, pés, pregas de pele) usando produtos suaves.
  • É anti-higiénico deixar de tomar banho todos os dias depois dos 65? Não. Com lavagem diária direcionada e roupa limpa, o risco de infeções não aumenta, e a pele muitas vezes fica menos irritada e mais confortável.
  • Que tipo de sabonete é melhor para a pele mais velha? Barras ou produtos líquidos syndet sem perfume e com pH equilibrado são, em geral, mais suaves do que os sabonetes alcalinos tradicionais, sobretudo em pele fina ou seca.
  • Lavar-se demais pode mesmo causar infeções? O excesso de lavagem pode danificar a barreira cutânea e perturbar o microbioma, o que pode facilitar a entrada de bactérias e fungos e causar problemas.
  • Como posso falar com um pai, mãe ou avô/avó sobre lavar menos? Comece pelo conforto, não pela crítica: fale de comichão, secura ou tonturas, traga o que o médico recomenda e proponha pequenas mudanças reversíveis em vez de regras radicais.

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