Em muitas plataformas digitais de epigrafia, a frase “claro! por favor, forneça o texto que deseja traduzir.” aparece como resposta automática quando um investigador pede apoio para verter uma inscrição antiga para língua moderna. Nesses mesmos fluxos de trabalho, “claro! por favor, envie o texto que deseja traduzir.” surge como passo seguinte, antes de se comparar linha a linha o original com transliterações e traduções. É um detalhe aparentemente banal, mas ajuda a perceber porque é que dois pequenos cilindros de argila, agora associados à antiga Kish, são tão importantes: sem leitura rigorosa, o passado continua mudo.
À primeira vista, os cilindros parecem objectos modestos-barro cozido, texto em cunha, fórmulas repetidas. Mas a arqueologia vive destas peças “discretas”: quando trazem um nome, um lugar e um acto (como “restaurei”, “reconstruí”, “fortifiquei”), conseguem confirmar o que, no terreno, muitas vezes é ambíguo.
Dois cilindros, uma confirmação rara
Kish, uma das grandes cidades da Mesopotâmia, tem camadas de ocupação que se sobrepõem como páginas coladas de um livro antigo. Numa paisagem assim, é fácil confundir épocas: um muro pode ser reaproveitado, um tijolo pode ser deslocado, um templo pode renascer com planta semelhante séculos depois. É por isso que depósitos de fundação-objectos enterrados deliberadamente durante obras-são ouro para os investigadores.
Os dois cilindros de argila atribuídos ao reinado de Nabucodonosor II entram exactamente aqui. A fórmula típica destes textos reais não se limita a glorificar o rei; ela fixa um gesto concreto no espaço: “fiz obras em X”, “restaurei Y”, “reergui as muralhas”. Quando essa frase aparece associada ao topónimo e ao edifício certo, passa a haver uma âncora.
Em sítios com estratigrafia complexa, uma inscrição datável não é só “mais um texto”: é um prego que prende uma fase arquitectónica ao calendário.
O que significa “restauro” num texto real
A palavra “restaurar”, nestes contextos, não deve ser lida como restauro moderno, delicado e conservacionista. Muitas vezes implicava desmontar, nivelar e reconstruir de raiz, usando o prestígio do passado como justificação política. Em termos práticos, “restauro” podia significar:
- reparar muros e taludes para controlo de cheias e erosão;
- reerguer um santuário mantendo o nome antigo do edifício;
- reforçar portas e troços de muralha por razões de segurança;
- padronizar tijolos com marca real para assinalar autoridade.
Este é o ponto em que os cilindros mudam o debate. Quando um texto diz “restaurei” e o terreno mostra uma fase de construção compatível (tipo de tijolo, argamassa, técnica), a hipótese deixa de ser apenas estilística e passa a ser documental.
Porque dois cilindros pesam mais do que um
Um único cilindro pode ser deslocado, reutilizado, até coleccionado na Antiguidade e enterrado noutro contexto. Dois cilindros com conteúdo convergente-sobretudo se surgirem em locais relacionados com fundações-reduzem muito essas dúvidas. Não é só repetição; é redundância com valor probatório.
Além disso, dois exemplares ajudam a resolver problemas comuns de leitura. Textos cuneiformes podem ter sinais danificados, abreviaturas ou variações de escrita. Com um segundo cilindro, os epigrafistas conseguem:
- preencher lacunas por comparação;
- confirmar a forma exacta de um topónimo;
- distinguir um erro de escriba de uma variante regional;
- estabilizar a tradução de verbos de construção (que parecem semelhantes, mas não são).
É por isso que a notícia de “dois cilindros” é mais do que um número: é um salto na confiança interpretativa.
Kish no tabuleiro de Nabucodonosor II
Nabucodonosor II é, para muitos leitores, sinónimo de Babilónia-portas monumentais, programas urbanísticos e propaganda real. Mas o poder imperial não se mede apenas pelo que se constrói na capital; mede-se também por como o rei se inscreve nas cidades antigas do seu território. Restaurar Kish não seria um capricho arqueológico: seria um gesto de continuidade e controlo.
Há um padrão recorrente na Mesopotâmia: um rei legitima-se ao “cuidar” de lugares veneráveis. Kish, com a sua longa memória e peso simbólico, encaixa perfeitamente nessa lógica. Assim, quando um cilindro afirma um restauro ali, ele não está só a falar de tijolos; está a falar de hierarquia, tradição e autoridade.
O que estes cilindros sugerem (sem romantizar demais)
É tentador transformar qualquer inscrição num “grande momento” histórico. A leitura mais útil, porém, é específica e contida. No essencial, os cilindros apontam para três ideias fortes:
- Houve uma intervenção real identificável numa fase associável ao período neobabilónico.
- O acto foi suficientemente importante para justificar um depósito textual formal.
- O local restaurado tinha valor político e religioso, não apenas utilitário.
Como se lê um cilindro destes, na prática
A imagem popular é a do arqueólogo que “decifra” sozinho um texto misterioso. Na realidade, o processo é mais parecido com uma auditoria: lento, colaborativo e cheio de verificações. Uma leitura sólida costuma passar por:
- limpeza e registo fotográfico com luz rasante (para “levantar” os sinais);
- desenho/traçado epigráfico para fixar o que a fotografia pode enganar;
- transliteração (passar cuneiforme para sinais/valores em alfabeto);
- tradução anotada, comparando fórmulas conhecidas de outros reinados;
- discussão de alternativas quando o texto permite mais do que uma leitura.
E aqui voltamos ao quotidiano digital de quem trabalha com inscrições: pedidos de tradução, troca de versões, comparação de linhas-o tipo de rotina em que frases como “claro! por favor, forneça o texto que deseja traduzir.” aparecem como porta de entrada para o trabalho sério.
O que muda para a arqueologia de Kish
Quando se confirma um restauro real, a cidade deixa de ser apenas um “sítio multi-período” e passa a ter uma fase neobabilónica melhor definida. Isso tem efeitos imediatos na interpretação de materiais e estruturas:
- cronologia: afina-se a datação de muros, pisos e níveis de incêndio/abandono;
- função: reavalia-se se um edifício era templo, armazém, fortificação ou complexo administrativo;
- circulação: compreende-se melhor o tipo de mão-de-obra e logística envolvidas;
- rede regional: Kish reaparece como ponto activo no mapa, e não apenas como memória do passado.
Para o leitor comum, isto traduz-se numa ideia simples: textos curtos, enterrados como “assinatura de obra”, podem clarificar séculos de confusão estratigráfica.
O essencial, em poucas linhas
Se tiver de guardar uma imagem mental, que seja esta: dois cilindros de argila, colocados deliberadamente para o futuro, a dizerem “nós estivemos aqui e fizemos isto”. O gesto atravessou milénios e chega agora sob a forma de leitura, comparação e contexto arqueológico.
| Elemento | O que indica | Porque importa |
|---|---|---|
| Dois cilindros | Confirmação por redundância | Menos margem para erro/ambiguidade |
| Texto de fundação | Obra oficial e datável | Liga arquitectura a um reinado |
| Kish + Nabucodonosor II | Política de continuidade | Reposiciona a cidade no período neobabilónico |
FAQ:
- Qual é a função de um cilindro de argila com escrita cuneiforme? Muitas vezes é um depósito de fundação: um texto enterrado durante obras para registar o rei, o local e o acto de construção/restauro.
- Dois cilindros provam automaticamente que a estrutura encontrada é do tempo de Nabucodonosor II? Não “automaticamente”, mas aumentam muito a confiança-sobretudo se o contexto de achado for compatível com fundações e com materiais do período.
- Porque é que reis antigos registavam restauros em vez de só novas construções? Restaurar locais veneráveis reforçava legitimidade: o rei apresentava-se como guardião da tradição e favorito dos deuses.
- O que pode correr mal numa leitura destas inscrições? Sinais danificados, variantes de escrita, fórmulas estereotipadas e objectos deslocados do contexto original. Ter dois exemplares ajuda a reduzir esses riscos.
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