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A EDF ainda pode ganhar o contrato de €16,4 mil milhões na Chéquia, caso Bruxelas anule a vitória do concorrente.

Seis pessoas de fato reunidas à mesa com documentos, ao fundo centrais de energia e gruas em obra.

O plano de Praga para aumentar a sua frota nuclear envelhecida transformou-se num teste de alto risco às regras da UE, aos auxílios estatais e à política energética.

A República Checa quer construir novos reactores nucleares; a sul-coreana KHNP foi escolhida; e Bruxelas abriu uma investigação formal. Esse passo único mantém a francesa EDF dentro do jogo por aquilo que muitos no sector já apelidam de “contrato do século”.

Dukovany sob a lupa de Bruxelas: um mega-projecto nuclear e os auxílios estatais

O dossiê em causa é a expansão de Dukovany, no sul da Morávia do Sul, onde continuam em operação quatro reactores VVER-440 de época soviética, apesar de décadas de serviço.

O Governo em Praga pretende instalar ali dois novos reactores de grande dimensão para garantir, a longo prazo, energia de base com baixas emissões de carbono e, em paralelo, reduzir a dependência do carvão e do gás importado.

Os montantes envolvidos são gigantescos. O custo de construção foi fixado em cerca de 8,2 mil milhões de euros por unidade, com base na proposta vencedora da KHNP. Somando financiamento, juros e contingências, o pacote de empréstimos públicos sobe para 23 a 30 mil milhões de euros.

A Comissão Europeia não está a avaliar a energia nuclear em si, mas sim se o dinheiro público inclina o campo de jogo de forma injusta a favor de um concorrente.

É por isso que Bruxelas avançou com uma investigação aprofundada por auxílio estatal ao modelo de apoio concebido pelo Estado checo.

O processo é politicamente sensível no mapa energético europeu: cruza metas climáticas, política industrial, tensões sobre subsídios estrangeiros e concorrência entre fornecedores nucleares dentro e fora da UE.

Como Praga quer financiar dois novos reactores em Dukovany

A arquitectura de financiamento desenhada para Dukovany assenta quase por completo no sector público:

  • 100% dos custos de construção cobertos por um empréstimo estatal de longo prazo com taxa preferencial
  • Um Contrato por Diferença (CfD) com 40 anos para estabilizar as receitas da electricidade
  • Garantias legais contra futuras mudanças de política que possam comprometer o projecto

No centro do esquema está a empresa pública do projecto, EDU II, detida em 80% pelo Estado checo e em 20% pela eléctrica nacional ČEZ.

No âmbito do CfD, a central recebe um “preço de exercício” fixo por cada megawatt-hora (MWh) de electricidade nuclear vendida.

Se o preço de mercado ficar abaixo do preço de exercício, o Estado paga a diferença. Se ficar acima, o operador devolve o excedente.

A ideia é converter o enorme custo inicial da nuclear num investimento previsível ao longo de décadas. Quem investe ganha visibilidade; contribuintes e consumidores passam a suportar uma parte significativa do risco associado ao preço.

O Governo pretende ainda um “escudo” jurídico contra alterações súbitas de fiscalidade ou viragens na política energética que possam destruir a viabilidade económica do projecto depois do início das obras.

Porque é que a Comissão Europeia travou e pediu esclarecimentos

Bruxelas já tinha dado luz verde, no passado, a um esquema semelhante para um único reactor. Precisamente por isso, a actual hesitação é particularmente notória.

A Comissão quer clarificar três pontos essenciais:

Questão Porque é importante
Dimensão do empréstimo público Pode afastar concorrentes e distorcer o mercado grossista de electricidade.
Desenho do CfD Tem de incentivar o operador a controlar custos, e não premiar derrapagens.
Partilha de riscos O apoio público não deve cobrir todos os cenários negativos para o investidor.

O que Bruxelas procura, em termos práticos, é prova de que o apoio é proporcionado, realmente necessário e não transforma Dukovany num negócio de “baixo risco e elevada rentabilidade” garantido pelos contribuintes.

Existe também uma preocupação mais ampla: projectos nucleares são conhecidos por derrapagens orçamentais. A Comissão não quer ver repetidos, noutros locais europeus, os espirais de custos observados em alguns estaleiros na última década.

A vitória da KHNP, a derrota da EDF - e porque a corrida ainda não terminou

Em 2024, as autoridades checas seleccionaram a sul-coreana Korea Hydro & Nuclear Power (KHNP) para construir as duas novas unidades em Dukovany.

A proposta coreana bateu os rivais no preço e apresentou um argumento de venda difícil de ignorar: compromisso de cumprimento de prazos e controlo de custos num sector com histórico de atrasos e derrapagens.

A EDF, que também concorreu, reagiu de forma dura. A empresa contestou a decisão nos tribunais checos, alegando que a KHNP não poderia cumprir preço e calendário sem apoio público oculto.

Os tribunais checos rejeitaram a queixa da EDF, e Praga assinou o contrato com a KHNP em Junho de 2025.

Mesmo com contrato assinado, o desfecho continua dependente de duas investigações distintas da UE: uma sobre auxílios estatais e outra sobre subsídios estrangeiros.

Além do processo de auxílio estatal, a Comissão está a analisar se a KHNP beneficiou de apoios indevidos do Estado sul-coreano capazes de colocar fornecedores europeus em desvantagem. A KHNP nega qualquer ajuda imprópria e sustenta que respeitou as regras europeias durante o concurso. A investigação sobre subsídios estrangeiros mantém-se em aberto.

Como Bruxelas pode reabrir a disputa

A Comissão sublinha que as suas investigações não pré-determinam o resultado. Ainda assim, criam uma zona de incerteza que a EDF pode explorar.

Há três cenários principais em cima da mesa:

  • Aprovação com condições: Bruxelas valida o esquema, mas exige ajustes no empréstimo ou no CfD, sem mexer directamente no contrato da KHNP.
  • Reestruturação profunda: o pacote de auxílio tem de ser tão alterado que a economia do projecto muda, podendo forçar renegociação.
  • Declaração de incompatibilidade: num cenário extremo, o apoio actual é considerado incompatível com as regras da UE, colocando todo o contrato sob forte pressão.

A EDF só vê um caminho realista de regresso à competição nos dois últimos casos. Juristas especializados em direito europeu lembram que, embora os contratos sejam nacionais, projectos sustentados em auxílios ilegais podem ser travados ou redesenhados.

Entretanto, o Governo checo afirma que o trabalho prosseguirá com financiamento privado, enquanto aguarda uma decisão de Bruxelas que poderá surgir por volta de 2027.

O que está em jogo para lá das fronteiras checas

Para muitas capitais da UE, o caso Dukovany é um teste à margem que os governos têm para usar dinheiro público na construção de infra-estruturas de grande escala e baixo carbono.

França, Polónia, Roménia e outros países encaram a energia nuclear como um pilar dos seus planos climáticos para 2050. Observam atentamente se a Comissão aceita apoios generosos a um Estado-membro sem desvirtuar a consistência do “livro de regras” europeu.

O processo expõe também uma escolha estratégica: deve a Europa recorrer a actores de fora da UE para grandes projectos nucleares, ou priorizar tecnologias desenvolvidas no espaço europeu, como o EPR2 da EDF, reactores de desenho norte-americano, ou futuros pequenos reactores modulares?

Se Bruxelas endurecer a sua posição face a propostas que considere sustentadas por subsídios estrangeiros, os fornecedores europeus podem ganhar terreno - mas os custos globais dos projectos podem aumentar no curto prazo.

Como funciona, na prática, um Contrato por Diferença (CfD)

Muito do debate gira em torno do CfD, um mecanismo mais habitual na eólica offshore e noutras renováveis.

Para quem não está familiarizado com finanças de energia, uma forma simples de o visualizar é como um seguro de preço de longo prazo:

  • Governo e central acordam um preço-alvo.
  • Se os preços de mercado caírem, o esquema compensa a central (financiado por consumidores ou contribuintes).
  • Se os preços de mercado subirem muito, a central devolve a diferença ao esquema, ajudando a proteger consumidores.

Este modelo dá confiança para investir milhares de milhões à partida, ao reduzir a volatilidade das receitas durante décadas. Em contrapartida, se o preço de exercício ficar demasiado elevado, os consumidores podem ficar vinculados a electricidade relativamente cara por muito tempo.

Licenciamento, cadeia de fornecimento e aceitação pública: o que também pode decidir o calendário

Para lá do financiamento, um projecto nuclear desta dimensão depende de licenças, fiscalização de segurança e coordenação entre reguladores, operador, construtor e rede eléctrica. Mesmo com um contrato sólido, atrasos em etapas administrativas, requisitos adicionais de segurança ou adaptações de engenharia podem alterar prazos e custos.

Há ainda o tema da cadeia de fornecimento e da capacidade industrial: mão-de-obra especializada, fabrico de componentes críticos e integração de fornecedores locais. A forma como a República Checa distribuir encomendas e desenvolver competências pode influenciar a aceitação política interna e a robustez do projecto ao longo de décadas.

O que significam os riscos para consumidores e investidores

Para famílias e empresas checas, a expansão de Dukovany pode ajudar a estabilizar preços de electricidade a partir de 2036–2037, quando se prevê que as novas unidades entrem em operação.

Se a construção decorrer sem sobressaltos e os preços grossistas se mantiverem elevados, o CfD pode até gerar devoluções para o Estado. Se os preços caírem ou se os atrasos fizerem disparar custos, os contribuintes podem enfrentar uma factura pesada.

Já para investidores, nuclear com garantia estatal é um activo raro: de longo prazo e com fluxos de caixa mais previsíveis num mercado energético volátil. Daí que a concorrência por contratos deste tipo continue intensa, mesmo quando o risco regulatório é elevado.

A EDF já enquadrou o projecto como uma oportunidade de 16,4 mil milhões de euros, valiosa não só pelo retorno financeiro, mas também pela influência industrial na Europa Central. A KHNP vê Dukovany como uma referência emblemática na UE, crucial para conquistar futuros contratos à escala global.

No fundo, por trás da linguagem jurídica e das notas de rodapé da Comissão, está uma tensão simples: a Europa quer energia limpa e fiável, mas também concorrência justa e prudência no uso de fundos públicos. Dukovany tornou-se o ponto de choque desses objectivos - e o local onde as ambições nucleares da EDF ainda mantêm uma pequena, mas muito real, abertura.

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